Out of Reach
Incrível como tem cheiro que desperta memórias a um ponto de você sair do ar. Pra mim, cheiro de pinheiro de natal tem esse efeito, sempre invade meu nariz e meu cérebro por janelas ou casas alheias.
Sei lá porque, lembro de Estados Unidos, meu intercâmbio, casa da minha coordenadora - lar de bizarrices que dariam um bom filme pastelão, tipo American Pie.
Era época de natal, provavelmente por isso o cheiro, na casa havia uma intercambista russa, magrinha e linda, que não dava a mínima bola pro bolinha aqui (na época, bem mais gordinho...). Não bastasse a frieza - culturalmente aceitável pra alguém da Latvia, ainda assim desagradável - a moça era linha dura, tinha planos de entrar para a academia naval e era respeitada no time de corrida da high school.
Pra piorar, a oxigenada natural se aproveitava da minha nobreza (e pagação de pau explícita) pra tirar uma onda. Quando eu cheguei na casa, ela me contou: todos os dias, acordava as 5 da manhã e corria tantos quilômetros pelo bairro. Eu, fodão profissional, disse que iria com ela um dia, pedi que me acordasse. Ela ainda me olhou com aquela cara de "você não vai dar conta, tem certeza?" mas eu fui assim mesmo. Afinal, pra quem corria todo dia sob sol a pino (mesmo que obrigado pelo COACH), o que seriam algumas quadras na escuridão?
A resposta veio logo de manhã: MUITO esforço. Língua de fora. No meio do percurso eu já estava mais ou menos uma quadra de distância, e a moça nem pingava. "Que foi, cansado?" dizia ela num tom irônico; "Não, claro que não!" e eu me matando pra impressionar. Por fim, em casa, tomei um banho e desmaiei na cama.
O estranho foi, mais tarde, descobrir que meu banho matinal acordou a casa toda, desacostumada a movimento tão cedo: a garota nunca havia corrido aquela hora, era tudo história. Incrível como tem gente que se esforça pra fazer os outros pagarem mico (e como os outros são tapados...).
Esse cheiro de pinheiro me dá sensações boas, mas também uma dorzinha na perna.